sábado, 31 de março de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
Frase do Dia
Imagem: Reprodução
"Vá com calma e aproveite a vida.
Não é só a paisagem que você perde indo muito rápido -
você também perde o senso de onde você está indo e por quê. "
Eddie Cantor
*“Slow down and enjoy life.
It's not only the scenery you miss by going to fast -
you also miss the sense of where you are going and why.”
Eddie Cantor
quinta-feira, 29 de março de 2012
A coragem de uma mulher apaixonada - Leonardo Boff
Adital - Há 800 anos, na noite de 19 de março de 1221, dia seguinte à festa de Domingos de Ramos, Clara de Assis, toda adornada, fugiu de casa para unir-se ao grupo de Francisco de Assis na capelinha da Porciúncula que ainda hoje existe. As clarissas do mundo inteiro e toda a família franciscana celebram esta data que significa a fundação da Ordem de Santa Clara espalhada pelo mundo inteiro.
Clara junto com Francisco - nunca devemos separá-los, pois se haviam prometido, em seu puro amor, que “nunca mais se separariam” segundo a bela legenda época - representa uma das figuras mais luminosas da Cristandade. É bom lembrá-la neste mês de março, dedicado às mulheres. Por causa dela, há milhões de Claras e Maria Claras no mundo inteiro. Ela, de família nobre de Assis, dos Favarone, e ele, filho de um rico e afluente mercador de tecidos, dos Bernardone.
Com 16 anos de idade quis conhecer o então já famoso Francisco com cerca de 30 anos. Bona, sua amiga íntima conta, sob juramento nas atas de canonização, que entre 1210 e 1212 Clara “foi muitas vezes conversar com Francisco, secretamente, para não ser vista pelos parentes e para evitar maledicências”. Destes dois anos de encontro nasceu grande fascínio um pelo outro. Como comenta um de seus melhores pesquisadores, o suíço Anton Rotzetter em seu livro Clara de Assis: a primeira mulher franciscana (Vozes 1994): “neles irrompeu o Eros no seu sentido mais próprio e profundo pois sem o Eros nada existe que tenha valor, nem ciência, nem arte, nem religião, Eros que é a fascinação que impele o ser humano para o outro e que o liberta da prisão de si mesmo”(p. 63). Esse Eros fez com que ambos se amassem e se cuidassem mutuamente mas numa transfiguração espiritual que impediu que se fechassem sobre si mesmos. Francisco afetuosamente a chamava de a “minha Plantinha”. Três paixões cultivaram juntos ao longo de toda vida: a paixão pelo Jesus pobre, a paixão pelos pobres e a paixão um pelo outro. Mas nesta ordem. Combinaram então a fuga de Clara para unir-se ao seu grupo que queria viver o evangelho puro e simples.
A cena não tem nada a perder em criatividade, ousadia e beleza, das melhores cenas de amor dos grandes romances ou filmes. Como poderia uma jovem rica e bela fugir de casa para se unir a um grupo parecido com os “hippies” de hoje? Pois assim devemos representar o movimento inicial de Francisco. Era um grupo de jovens ricos, vivendo em festas e serenatas que resolveram fazer uma opção de total despojamento e rigorosa pobreza nos passos de Jesus pobre. Não queriam fazer caridade para pobres, mas viver com eles e como eles. E o fizeram num espírito de grande jovialidade, sem sequer criticar a opulenta Igreja dos Papas.
Na noite do dia de 19 de março, Clara, escondida, fugiu de casa e chegou à Porciúncula. Entre luzes bruxoleantes, Francisco e os companheiros a receberam festivamente. E em sinal de sua incorporação ao grupo, Francisco lhe cortou os belos cabelos louros. Em seguida, Clara foi vestida com as roupas dos pobres, não tingidas, mais um saco que um vestido. Depois da alegria e das muitas orações foi levada para dormir no convento das beneditinas a 4 km de Assis. 16 dias após, sua irmã mais nova, Ines, também fugiu e se uniu à irmã. A família Favarone tentou, até com violência, retirar as filhas. Mas Clara se agarrou às toalhas do altar, mostrou a cabeça raspada e impediu que a levassem. O mesmo destemor mostrou quando o Papa Inocêncio III não quis aprovar o voto de pobreza absoluta. Lutou tanto até que o Papa enfim consentisse. Assim nasceu a Ordem das Clarissas.
Seu corpo intacto depois de 800 anos comprova, uma vez mais, que o amor é mais forte que a morte.
Leonardo Boff - teólogo, filósofo e escritor
Fonte: Tribuna do Norte
Millôr Fernandes - Paulo Sant'ana
Imagem: Mike Bartholomeu
Morreu Millôr Fernandes, o maior de todos nós, jornalistas brasileiros.
Ensinou-nos que “imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”.
Ou seja, afirmava que o jornalismo tem o dever de ser oposição a qualquer governo.
Ele foi admirável nesse posicionamento porque foi o único que não aderiu nunca a qualquer governo, mesmo que simpatizasse com algum eventual governo e suas ideias.
Deixa por isso um vazio impreenchível, desde que há sempre alguém que vá aderir ao governo de sua preferência ideológica.
Dono de uma erudição invejável, não precisou trabalhar na Globo para se tornar muito popular. Seus fãs, como meu filho Jorge Antônio, tinham devoção por ele, cultuavam-no como a um deus.
Ninguém como ele falou mais sério exercendo o humor. Obrigava seus leitores a pensar.
Dizem que ele foi o mais eficiente tradutor de Shakespeare entre nós, o que por si já o define de certo modo, o bardo inglês foi mais abrangente que Freud ao vasculhar a alma humana.
Tenho algumas máximas de Millôr Fernandes decoradas: “O melhor do sexo antes do casamento é você não ter que casar”. “Chama-se de herói o cara que não teve tempo de fugir”. “Um rato não pode ser juiz na partilha de um queijo”. “Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder”.
São milhares as suas frases luminosas. Era dono de uma verve ilimitada, bastava descobrir no cotidiano ou na filosofia um fato ou uma evidência para adorná-lo com suas inteligentes e contraditórias observações.
Foi cronista semanal admirável. E conseguiu ser ótimo cronista diário. Trabalhou em revistas, jornais, criou peças de teatro com invejável talento. Tenho uma coletânea de pensamentos seus de 600 páginas e nunca me fatiguei em relê-la, como a uma Bíblia.
Nessa ânsia maniática que temos de organizar um ranking sobre o mérito das pessoas, fico tentado a dizer que ele foi o maior jornalista e maior humorista da história brasileira.
Morreu há tempos Nelson Rodrigues, morreu há pouco Chico Anysio e agora morre Millôr Fernandes.
Eles foram os pais de criação de sua geração. Tornaram-se exemplos e paradigmas inimitáveis, Millôr jogou sobre as multidões de leitores um jorro de luz e de beleza ofuscante.
Não o conheci, mas sempre me pareceu que era meu íntimo. Minha meta era ser apenas 10% do que ele fora, tão grande ele era e é.
Não tenho palavras para definir a falta que ele me fará, se é que me fará falta, porque sempre trarei na mesa ao lado de minha cama fragmentos de sua obra faiscante.
Ainda bem que, em vida, muitas vezes aqui nesta coluna elogiei-o como agora o estou elogiando por sua morte.
Ele foi meu profeta do humor e da inteligência.
Ele foi o meu farol.
E não precisou ser da Globo para se tornar um ícone nacional.
Millôr, gigante pela própria natureza!
Fonte: Blog Conteúdo Livre / Via Zero Hora
Frase do Dia
"Lembro-me de uma manhã levantando de madrugada, houve uma sensação de possibilidade. Sabe aquela sensação? E eu me lembro de pensar que este é o começo da felicidade. Este é o lugar onde ela começa e, claro, sempre haverá mais. Nunca me ocorreu que não era o começo. Era felicidade. Era o momento. Certo, então.... "
- Do filme"As Horas"
* "I
remember one morning getting up at dawn, there was such a sense of
possibility. You know that feeling? And I remember thinking to myself
this is the beginning of happiness. This is where it starts and of
course there will always be more. It never occurred to me it wasn't the
beginning. It was happiness. It was the moment. Right then.”
- From the movie "The Hours"
quarta-feira, 28 de março de 2012
Siri Hustvedt: Inteligência, sensibilidade e beleza.
Conversamos com a poeta, ensaísta e ficcionista best-seller, Siri
Hustvedt: ela contesta os livros de autoajuda, rebate os lugares-comuns
em torno das diferenças entre homens e mulheres e diz que acredita na
cura emocional por meio da conversa
Questionadora, obstinada, amante da filosofia, da arte, da neurociência e da psicanálise, aos 56 anos a americana, filha de mãe norueguesa, lançou recentemente nos Estados Unidos mais um romance, The Summer Without Men. É a história de uma mulher de meia-idade abandonada pelo marido – um romance provocativo e revelador sobre meninas e mulheres, amor e casamento e as diferenças entre os sexos. Casada com o também escritor Paul Auster, Siri é ainda uma linda mulher, que se queixa de preconceito contra a beleza.
Qual a contribuição de seus livros às mulheres?
Espero que aos homens também... (Risos.) Gosto de causar um pouco de confusão e questionamento, porque muito do que vemos, lemos ou escutamos é clichê. Querem nos dizer o que é a vida, como é correto vivê-la, mas, muitas vezes, estão errados. Cada era tem o seu clichê. Nos Estados Unidos, agora, são idolatradas as pessoas que alcançam o sucesso sem a ajuda de ninguém. Isso é impossível. Fomos crianças que dependiam de adultos e sempre precisaremos de relações e contatos para chegar a qualquer lugar. O mundo todo assiste ao fenômeno dos livros de autoajuda, que espalham a ideia de que estamos cientes de todas as nossas escolhas. É uma apelação ao narcisismo humano. Não temos controle total da vida. Somos vítimas de acontecimentos. Não se pode culpar ninguém por estar doente. Não existem sete passos para ser uma pessoa melhor porque não é possível estabelecer um padrão e querer que todo mundo se encaixe. Buscamos soluções fáceis, queremos instruções de como é certo viver, mas essas respostas não existem. Somos seres complicados, e impor um comportamento pode ser destrutivo.
Seu último livro, The Summer Without Men, lançado em abril deste ano nos Estados Unidos, fala de uma mulher de meia-idade que é deixada pelo marido. O que a levou a explorar o assunto?
O poder da ficção e dos ensaios é questionar e contestar essas fórmulas prontas que querem ter poder sobre nós. Não as aceito de jeito nenhum. Quero olhar para as experiências de forma fresca, nova. Em The Summer Without Men (ainda sem data de lançamento no Brasil), rebato os lugares-comuns que rondam as diferenças entre homem e mulher. Mia, a personagem central, diz: “Não é que não exista diferença entre homem e mulher, mas, sim, quanta diferença essa diferença faz”. O livro é uma comédia, porém com uma discussão interessante sobre a diferença. O resultado de anos de opressão é a diminuição da confiança que temos em nós mesmas. A solução para sermos mulheres mais fortes e poderosas é a educação. Os pais precisam passar às filhas a lição de que elas são capazes de tudo que desejam e que o futuro não está predeterminado.
Depois de encarnar personagens masculinos em dois de seus livros, você disse que temos o homem e a mulher dentro de nós. Acha que seria útil se ouvíssemos ambas as vozes?
Sim! Às mulheres, associamos a ideia de cuidado, preocupação e maternidade. Os homens são poderosos. Há coisas boas em ambos. Ouvir as duas vozes pode significar fazer boas trocas, entrar em contato com o lado positivo do outro para se tornar um ser humano completo.
Você e seu marido trabalham juntos em casa e são os primeiros a ler e comentar os livros um do outro. Qual o segredo para essa convivência feliz em um mundo em que a competição entre homens e mulheres é cada vez maior?
Escrevemos em ambientes diferentes, para começar. Mas há dois lados nessa questão: um é o da sociedade competitiva; o outro é a nossa relação literária de 30 anos. Temos interesse no trabalho um do outro e construímos um diálogo frutificante nesse sentido. Fora isso, escrevo desde os 13 anos e, em minha ingênua visão, nunca pensei na literatura como território de predominância masculina.
Você também estuda psicanálise. O que aprendeu sobre a natureza humana e a natureza da mulher?
Um dos principais fundamentos da psicanálise é que somos estranhos a nós mesmos. Muito do que o nosso cérebro e nossa mente fazem é inconsciente, segundo Freud. A consciência é uma pequena parcela do que acontece dentro de nós, mas não temos acesso a muitas informações e outras não conseguimos entender. Fazer psicanálise é reescrever a história de quem somos e do que fazemos. Crescemos ouvindo recordações dos familiares de coisas que já fizemos, mas, por meio de um processo que começa com dor e angústia, chegamos a uma verdade que faz mais sentido emocional, mesmo não sendo uma verdade absoluta. Acredito na cura por meio da conversa.
Mas os números mostram que muita gente prefere os antidepressivos e ansiolíticos. A felicidade vem em pílulas vendidas nas farmácias?
Acredito que os remédios podem ajudar. O problema está na forma nada sutil da aplicação dos psicofármacos. Estudando para escrever sobre um personagem psicanalista, em Desilusões de um Americano, descobri que os médicos ouvem alguns sintomas, dão uma droga e esperam que vá funcionar. Nos Estados Unidos, por exemplo, alguns diagnósticos, como hiperatividade, são resolvidos com estimulantes. Essa prática já ficou tão comum que vemos até crianças medicadas. Um amigo neurocientista diz que a cura, na maior parte dos casos, é deixar a criança brincar até cansar. Essa e algumas outras doenças já se tornaram culturais. Mas a cura por meio da palavra é cara e leva muito tempo.
Nos Estados Unidos, algumas mães não acreditam que a educação e
o estilo de vida americanos preparem as crianças para viver no mundo
multicultural de hoje. Acham que a América olha muito para si mesma e
preferem mandar os filhos estudar fora do país. Qual a sua opinião?
Cresci falando duas línguas: norueguês, que aprendi com a minha mãe, e inglês. Na infância, sentia que conseguia entender minhas experiências em duas perspectivas. Sou a favor de aprender idiomas; quanto mais, melhor. Em Nova York, 40% das pessoas nasceram em outros países. Andando pelas ruas, brinco de tentar adivinhar qual a língua falada por alguém próximo a mim. Essa é uma boa cidade para ter filhos, porque, quase por necessidade, eles estão convivendo com pessoas do mundo inteiro. Mas, em outros aspectos, a cultura americana é bem fechada e centrada nela mesma.
Cresci falando duas línguas: norueguês, que aprendi com a minha mãe, e inglês. Na infância, sentia que conseguia entender minhas experiências em duas perspectivas. Sou a favor de aprender idiomas; quanto mais, melhor. Em Nova York, 40% das pessoas nasceram em outros países. Andando pelas ruas, brinco de tentar adivinhar qual a língua falada por alguém próximo a mim. Essa é uma boa cidade para ter filhos, porque, quase por necessidade, eles estão convivendo com pessoas do mundo inteiro. Mas, em outros aspectos, a cultura americana é bem fechada e centrada nela mesma.
Na educação da sua filha, você é mais Amy Chua, a mãe chinesa durona, ou mais condescendente?
Sou mais mole, com certeza. Mas sei que crianças não gostam de liberdade total. Elas se desenvolvem melhor em situações de ordem e rotina, principalmente quando pequenas. Muita liberdade leva a ansiedade, frustração e surtos. Precisam de pais que façam escolhas por elas. É a parte confortável de ser criança e dá a sensação de segurança e tranquilidade.
Você é uma mulher bonita. Qual o impacto disso em sua vida?
Quem está falando isso é você! Do meu ponto de vista, sou uma escritora envelhecendo. Mulheres bonitas e intelectuais sofrem preconceito. Parece que ninguém acredita que é possível ser as duas coisas. A beleza faz com que as pessoas tratem você de forma mais condescendente. À parte a longa história de disputa entre homens e mulheres, o fato de pertencermos a uma sociedade obcecada por beleza atrapalha. É angustiante, pois, muitas vezes, deixamos de promover o melhor da mulher para falar da sua beleza. Compramos um monte de produtos, perseguimos o glamour. Sempre digo que celebridades vivem em terceira pessoa porque não podem ter personalidade própria. Ao acompanhar as notícias e fotos dos famosos, estamos comprando imagens de uma pessoa que não existe, que não é real.
Fonte: Revista Cláudia
terça-feira, 27 de março de 2012
Fragmentada consistência - Carmen Vasconcelos
Imagem: Reprodução
Ah, eu levo a vida em querer consistir. É importante, fundamental,
consistir. Penso em consistir o tempo todo. Mas, em quê? Ora, cada um
consiste no que lhe vale, ou no que pode. Queria mesmo era consistir em
meu pai (a melhor consistência, me disse um dia tia Mônica essa coisa
que eu já sabia, mas nunca tinha ouvido alguém dizer com tanta
afirmação). Mas sou pouco, muito pouco para ser ele, então, consisto no
que posso, a cada dia. E a cada dia procuro mais consistir.
Penso em gentes: penso em amigos, em
família, em homem e filha que me teçam em brio e ternura. Penso em
ternura, esta coisa que se insinua sempre, que aparece sempre, em todo
lugar e hora, até quando menos se espera. Penso em livros, em quadros,
em música. Um retrato (Dorian Gray), um príncipe (da Dinamarca), poemas
(de Montale), fogo, terra, água e ar. Frida, Artemísia, Alma Mahler, Lou
Salomé. Pessoa (s).
Penso em símbolos para me darem consistência. Não é só uma, são
muitas as consistências de que preciso. Então, penso em símbolos:
pérolas, dríades, máscaras, matrioskas, espelhos, bruxas, luar… São
metáforas de mim. Mas serão as metáforas, consistências? Tanto quanto os
deuses eram astronautas. Metáforas não são substâncias, não consistem,
mas anunciam o ato de consistir. Metáforas são sempre possibilidades.
Então, me aferro em pensar metáforas, tenho por elas um apego fascinado.
Será que consisto em amor? Amor é perfume, consisto? É sólido, a
ponto de me dar sustança? Ou desmancha no ar, ou me desmancha? Quem
deseja consistir em amor, é porque antes consiste um pouco em loucura.
Disse Walt Whitman: “Já percebi que estar do lado de quem gosto de
basta… Não peço delícia melhor. Mergulho nisso como num mar”. Ah, mas a
felicidade é um deus escorregadio, sigo precisando consistir outras
consistências.
Sou humana, no que consisto é humano: suor, sangue e lágrimas de
deuses exagerados. Se eles pecam por exagero, que será de nós? Ficaremos
pendurados como pêndulos nos extremos dos deuses? Consistiremos nós no
cansaço deles, no que resta dos seus excessos? Se eles são por demais
inteiros, que sobras somos nós?
Consistimos mesmo é em fragmentos, mas querendo inteirezas. Estas, quando existem, existem porque nos arrastam e não porque as alcançamos. Por mais que desejemos inteirezas, não dá para ser inteiro por obra e graça do desejo. Mas às vezes, mesmo sem querermos, a inteireza nos arrebata, e aí não dá para ser menos do que inteiros, ainda querendo não ser. Somos umas contradições.
Consistimos mesmo é em fragmentos, mas querendo inteirezas. Estas, quando existem, existem porque nos arrastam e não porque as alcançamos. Por mais que desejemos inteirezas, não dá para ser inteiro por obra e graça do desejo. Mas às vezes, mesmo sem querermos, a inteireza nos arrebata, e aí não dá para ser menos do que inteiros, ainda querendo não ser. Somos umas contradições.
Guardamos segredos de nós mesmos. Procuramos respostas que nunca
chegaremos a encontrar. Temos medo de conhecer os nossos medos.
Consistimos em mosaicos. Somos ultrapassados por nós mesmos e nisso
consiste a nossa maior frustração: algo de nós foge sempre ao nosso
próprio controle. Algo de nós sempre nos foge. De quando em vez nos foge
a substância. Ficamos vazios, desejantes, consistimos em seres que
procuram. Procurar é, pois, a consistência. Em que consisto? Consisto na
procura.
Carmen Vasconcelos, poetisa, texto publicado no blog Substantivo Plural.
segunda-feira, 26 de março de 2012
sexta-feira, 23 de março de 2012
quinta-feira, 22 de março de 2012
As "garotas tipo" vão mudar o mundo - Ivan Martins
Imagem: Reprodução
Com isso, vão permitir que os homens mudem seu jeito de ser
Saiu na revista Time desta semana uma notícia capaz de
apavorar os tradicionalistas: nos Estados Unidos, as mulheres entre 20 e
30 anos estão ganhando mais dinheiro do que os homens na mesma idade.
Não se trata de uma projeção sobre o futuro. Está acontecendo já, neste
momento. Sem fazer barulho, as garotas americanas ultrapassaram os caras
na competição por salário e renda. Faz alguns anos que elas vinham se
dando melhor na escola e, mais recentemente, começaram a se diplomar em
maior número, mesmo em carreiras tradicionais como medicina e direito.
Agora, começaram a ganhar mais. Se não houver alguma interrupção
imprevista, a mudança vai se aprofundar e permanecer.
Alguns talvez fiquem surpresos com a notícia. Eu não. Nos últimos anos,
tenho visto levas de garotas talentosas e dedicadas chegar aos
ambientes de trabalho armadas com sorrisos perfeitos – uma marca
cintilante dessa geração – e de uma atitude profissional que varia do
sutilmente insolente ao descaradamente insubordinado. Elas são bem
preparadas, têm ambição de subir na vida e trabalham duro. Pode demorar
mais tempo, mas a tendência é que elas repitam aqui no Brasil o que já
estão fazendo nos Estados Unidos – virando o jogo.
Deixo aos economistas e sociólogos a tarefa de especular sobre as
consequências práticas dessa mudança. Da minha parte, além de bater
palmas (levemente aturdido), só tenho a declarar minha preocupação com
os impactos afetivos da nova situação.
Eu me pergunto o que vai acontecer nas relações entre homens e mulheres
quando elas se tornarem as donas do dinheiro e dos empregos de
prestígio. Como se comportarão os homens quando elas – e não eles -
tiverem o dinheiro necessário para pagar a conta do restaurante,
reservar hotéis e comprar carros? O que vai acontecer quando o salário
das mulheres for o maior na maioria das casas e o emprego masculino se
tornar o menos importante da família? Será que os homens ficarão em casa
quando as crianças estiverem doentes ou não puderem ir à escola por
qualquer outra razão? Imaginem...
A reportagem da revista Time conta uma coisa engraçada. Ela diz que as
mulheres jovens que já vivem a situação de ter mais dinheiro e mais
poder que os homens ocultam isso daqueles em quem estão interessadas. Se
elas têm um carro muito caro, arrumam um jeito de escondê-lo para não
assustar o pretendente. Se o emprego delas é muito especial, disfarçam
isso atrás de um título genérico. Uma delas disse à revista que compra
ingressos para shows bacanas, mas diz ao namorado que ganhou os convites
na firma porque ele não teria dinheiro para ir aos shows e ficaria
humilhado se ela sempre pagasse as entradas.
Esses truques femininos sugerem que o ego masculino, de um modo geral, ainda não lida bem com mulheres poderosas.
Nós fomos criados para ser o capitão do time, o comandante da tropa e,
ao menos materialmente, o chefe da família. Quando essas coisas mudam,
algo se altera dentro de nós, e pode não ser para melhor. Um homem que
perdeu o seu lugar de prestígio social pode não ser o homem a que as
mulheres estão acostumadas ou desejam. Em tese, as garotas são educadas a
procurar nos homens características que denotem segurança e sucesso. Se
elas são atraídas por machos alfas, o que acontecerá quando elas, em
toda parte, forem mais alfas do que eles?
Eu não sei, mas por algumas razões não estou tão preocupado.
A principal delas é que essa enorme mudança está sendo construída
devagarzinho, de forma profunda, há muito tempo. As meninas de 20 anos
que estão por ai - que eu costumo chamar de “Geração Tipo”, por causa
daquela palavrinha que se repete a cada meia dúzia de palavras que elas
falam... – são muito mais independentes e assertivas do que as garotas
da mesma idade da minha geração. Claro, sempre houve mulheres de
personalidade, mas elas nunca foram tantas como agora, ou nunca se
mostraram tão claramente. Os caras da idade delas estão acostumados.
Eles convivem, conversam, discutem e (quando crianças) até saem no braço
como iguais. As relações afetivas se desenvolvem desde cedo num
contexto em que a dominação masculina é mais frágil, ou mesmo
inexistente. Para mim, as mudanças de comportamento das garotas parecem
drásticas e repentinas, para os homens jovens são parte do mundo em que
eles cresceram. Eles se apaixonam por essas mulheres imperativas desde a
adolescência – e parecem estar perfeitamente adaptados a elas.
É provável, portanto, que caiba às mulheres da Geração Tipo a tarefa de
patrocinar a grande mudança masculina desde a saída das cavernas – a
perda do protagonismo social absoluto. Discute-se muito que a vida das
mulheres mudou enormemente nas últimas décadas e que não teria havido
mudanças correspondentes na vida dos homens. Agora que a mudança vem
chegando (e o caminhão é enorme), fica evidente que ela só poderia
ocorrer com a ajuda das mulheres.
Para os homens descubram a sua própria sensibilidade, é essencial que
as mulheres assumam parte das tarefas que ajudaram a moldar a dureza
masculina. Competir, impor-se socialmente, ganhar a vida num mundo
frequentemente áspero não são coisas que se faz apenas com sorrisos e
docilidade. As mulheres da Geração Tipo demonstram saber disso.
Para que os homens assumam parte maior das tarefas práticas e
emocionais das mulheres, é necessário que elas saiam de casa e abracem
as responsabilidades que antes cabiam apenas a eles. Quando os homens
deixam de ser os principais provedores da família, abre-se a
possibilidade de que eles venham a se tornar pais mais atenciosos, donos
de casa mais ativos e até companheiros mais cuidadosos e perceptivos.
Não haveria como pedir aos homens que mudassem sem que as mulheres
mudassem também – e agora isso ficou claro. Mulheres que saem abrem
espaço para homens que ficam. Mulheres assertivas permitem parceiros
tímidos. Mulheres menos emocionais permitem homens mais emotivos.
Mulheres duras criam as condições para a existência de homens frágeis.
As garotas da Geração Tipo, concientemente ou não, estão criando as
condições de mudança. Com seus sorrisos cintilantes e seus modos às
vezes abruptos, elas vieram para mudar o mundo. Espera-se que em
benefício delas mesmas e também dos homens.
quarta-feira, 21 de março de 2012
O longo caminho do coração feminino - Fabrício Carpinejar
Se você está casado, é um vencedor. Merece cada volta completa na rede.
Cada ronco do mate. Sobreviveu a toda a desconfiança feminina, a todos
os testes que sua musa impôs a um relacionamento.
A mulher tem um Desenvolvimento de Recursos Humanos na alma para escolher seu par perfeito. Um Hans Christian Andersen introjetado para recrutar parceiros.
Ela não se casa com qualquer um, é uma longa seleção a partir de contos de fadas como A Pequena Sereia, Os Sapatinhos Vermelhos, A Princesa e a Ervilha e A Polegarzinha. Se usa aliança na mão esquerda, desbancou superstições, crendices e conselhos. Já pode escrever um livro de autoajuda e descrever sua façanha.
Desde os três anos, a mulher responde a enquetes sobre como ser feliz no romance. É veterana no assunto. Seus olhos carregam o pdf da Sabrina (o pretendente pode fazer download no primeiro encontro).
Se você está casado, é um vitorioso. Superou concorrentes desleais e pré-requisitos dificílimos. Escapou das premonições da sogra, que vivia dizendo a sua filha com quem ela poderia se envolver e de quem não deveria nem se aproximar, driblou o olho gordo dos cunhados e do sogro, que tentaram desqualificar a aproximação de ectoplasmas masculinos. Ninguém ajudou a chegar aonde você se encontra, no lado direito ou esquerdo da cama, com direito a um abajur e uma gaveta no criado-mudo.
O matrimônio é uma batalha épica somente igualável à fecundação. No seu percurso até o óvulo, o espermatozoide teve que enfrentar inimigos como os espermicidas e o preservativo, barreiras biológicas como o baixo pH vaginal e glândulas mucosas e vencer a licitação pública de 200 a 500 milhões de espermatozoides.
Em seu caminho ao coração de sua dona, não há moleza. Condicionado a achar a saída do labirinto do mapa astral, convergir com os horóscopos, fechar com o retrato falado da revista Capricho, saciar as sinopses dos filmes favoritos e atender as expectativas das canções de Chico Buarque. Não é tarefa para fracos e pobres de espíritos. Justifica receber de presente o pay per view da Libertadores.
Escapou da sabatina do Congresso do Amor, resistiu à CPI da Transparência, desmentiu suspeitas durante o namoro, abriu as contas no noivado. Deixou para trás ciganas loucas por um cigarro, e saiu ileso das profecias da cartomante em alguma tenda ou fundos de residência (sua cara-metade ouviu o jeito que você seria no tarô, e cruzou as informações com suas palavras e atitudes minuto a minuto).
Não foi barbada. Sua esposa mantém uma câmera escondida no rosto, confirmando evidências e comparando padrões. Ela não escuta, analisa. Não fala, soluciona. Não esquece, guarda arquivos temporários.
Se você está casado, é um afortunado. Valorize a si mesmo. Ou cumpriu o impossível, ou sua mulher deu cola para você passar na prova e subir ao altar.
A mulher tem um Desenvolvimento de Recursos Humanos na alma para escolher seu par perfeito. Um Hans Christian Andersen introjetado para recrutar parceiros.
Ela não se casa com qualquer um, é uma longa seleção a partir de contos de fadas como A Pequena Sereia, Os Sapatinhos Vermelhos, A Princesa e a Ervilha e A Polegarzinha. Se usa aliança na mão esquerda, desbancou superstições, crendices e conselhos. Já pode escrever um livro de autoajuda e descrever sua façanha.
Desde os três anos, a mulher responde a enquetes sobre como ser feliz no romance. É veterana no assunto. Seus olhos carregam o pdf da Sabrina (o pretendente pode fazer download no primeiro encontro).
Se você está casado, é um vitorioso. Superou concorrentes desleais e pré-requisitos dificílimos. Escapou das premonições da sogra, que vivia dizendo a sua filha com quem ela poderia se envolver e de quem não deveria nem se aproximar, driblou o olho gordo dos cunhados e do sogro, que tentaram desqualificar a aproximação de ectoplasmas masculinos. Ninguém ajudou a chegar aonde você se encontra, no lado direito ou esquerdo da cama, com direito a um abajur e uma gaveta no criado-mudo.
O matrimônio é uma batalha épica somente igualável à fecundação. No seu percurso até o óvulo, o espermatozoide teve que enfrentar inimigos como os espermicidas e o preservativo, barreiras biológicas como o baixo pH vaginal e glândulas mucosas e vencer a licitação pública de 200 a 500 milhões de espermatozoides.
Em seu caminho ao coração de sua dona, não há moleza. Condicionado a achar a saída do labirinto do mapa astral, convergir com os horóscopos, fechar com o retrato falado da revista Capricho, saciar as sinopses dos filmes favoritos e atender as expectativas das canções de Chico Buarque. Não é tarefa para fracos e pobres de espíritos. Justifica receber de presente o pay per view da Libertadores.
Escapou da sabatina do Congresso do Amor, resistiu à CPI da Transparência, desmentiu suspeitas durante o namoro, abriu as contas no noivado. Deixou para trás ciganas loucas por um cigarro, e saiu ileso das profecias da cartomante em alguma tenda ou fundos de residência (sua cara-metade ouviu o jeito que você seria no tarô, e cruzou as informações com suas palavras e atitudes minuto a minuto).
Não foi barbada. Sua esposa mantém uma câmera escondida no rosto, confirmando evidências e comparando padrões. Ela não escuta, analisa. Não fala, soluciona. Não esquece, guarda arquivos temporários.
Se você está casado, é um afortunado. Valorize a si mesmo. Ou cumpriu o impossível, ou sua mulher deu cola para você passar na prova e subir ao altar.
Burrocracia - Martha Medeiros
Imagem: Reprodução
Recebi convite para participar de um evento literário em João Pessoa. Já
quase não viajo a trabalho, preciso ficar mais tempo no meu
escritório, mas respondi que, dependendo da data, talvez conseguisse
ir. Foi então que me chegou uma lista de documentos que eu deveria
providenciar para viabilizar minha participação.
Não acreditei. Nem para um ex-presidiário acusado de desfalque do Banco Central exigiriam tamanha quantidade de certificados de idoneidade moral e financeira. Eu teria que passar uma semana percorrendo cartórios e contratar um ou dois advogados. Muito grata, mas fica pra próxima.
Nunca vi um país se entravar tanto. Nada avança em ritmo razoável. As incensadas obras prometidas para a Copa do Mundo são apenas um exemplo. Afora maledicências, pilantragens e disputas de poder, ainda temos a questão da papelada: é 1 milhão de pareceres, assinaturas, carimbos e rubricas que impedem o andar da carruagem. Pois é, ainda estamos nos tempos da carruagem, trotando.
Durante a enxurrada que desabou sobre Porto Alegre, semana passada, tivemos mais do mesmo: ruas alagadas nos pontos de sempre. Ok, o asfalto não absorve a água, o lixo é jogado em locais impróprios e choveu o esperado para o mês inteiro. Mas não há pessoas dentro das secretarias de governo sendo pagas para resolver os problemas da cidade?
Vai chover de novo, e forte. E os carros ficarão boiando, poucos conseguirão chegar ao trabalho, o comércio terá que fechar, moradores perderão seus móveis, grávidas terão que ser retiradas de barco de dentro de suas casas. É um déjà vu recorrente.
Como não imagino que haja almas satânicas por trás da nossa administração, só posso pensar que a burocracia tem algo a ver com isso. Quantos estudos, laudos, aprovações, orçamentos, prazos remarcados, projetos refeitos serão necessários para resolver nossas pendências? É o país da novela, de fato.
Fizemos progresso na emissão de documentos pessoais – hoje se pode tirar uma certidão de nascimento ou uma carteira de identidade sem trâmites e demoras, mas ainda falta, como falta, para a gente ser uma nação que flui. A expressão “é pra ontem”, que configura a pressa, passou a ser literal. Não conseguimos sair do ontem e entrar no amanhã.
Os reféns da burocracia se defendem dizendo que não é culpa deles, exige-se o cumprimento da lei, e estão certos, senão vira bagunça. Mas alguém lá em cima, com a caneta na mão, tem o dever de promover mais agilidade nesse Brasil que só é rápido na informalidade. Há que se encontrar um meio de trabalhar de forma legal e ao mesmo tempo atender as demandas em prazo de país desenvolvido, que é o que almejamos ser.
O que é preciso para promover a desburocratização? Claro, uns 3.479 estudos de viabilidade. Pocotó, pocotó.
Não acreditei. Nem para um ex-presidiário acusado de desfalque do Banco Central exigiriam tamanha quantidade de certificados de idoneidade moral e financeira. Eu teria que passar uma semana percorrendo cartórios e contratar um ou dois advogados. Muito grata, mas fica pra próxima.
Nunca vi um país se entravar tanto. Nada avança em ritmo razoável. As incensadas obras prometidas para a Copa do Mundo são apenas um exemplo. Afora maledicências, pilantragens e disputas de poder, ainda temos a questão da papelada: é 1 milhão de pareceres, assinaturas, carimbos e rubricas que impedem o andar da carruagem. Pois é, ainda estamos nos tempos da carruagem, trotando.
Durante a enxurrada que desabou sobre Porto Alegre, semana passada, tivemos mais do mesmo: ruas alagadas nos pontos de sempre. Ok, o asfalto não absorve a água, o lixo é jogado em locais impróprios e choveu o esperado para o mês inteiro. Mas não há pessoas dentro das secretarias de governo sendo pagas para resolver os problemas da cidade?
Vai chover de novo, e forte. E os carros ficarão boiando, poucos conseguirão chegar ao trabalho, o comércio terá que fechar, moradores perderão seus móveis, grávidas terão que ser retiradas de barco de dentro de suas casas. É um déjà vu recorrente.
Como não imagino que haja almas satânicas por trás da nossa administração, só posso pensar que a burocracia tem algo a ver com isso. Quantos estudos, laudos, aprovações, orçamentos, prazos remarcados, projetos refeitos serão necessários para resolver nossas pendências? É o país da novela, de fato.
Fizemos progresso na emissão de documentos pessoais – hoje se pode tirar uma certidão de nascimento ou uma carteira de identidade sem trâmites e demoras, mas ainda falta, como falta, para a gente ser uma nação que flui. A expressão “é pra ontem”, que configura a pressa, passou a ser literal. Não conseguimos sair do ontem e entrar no amanhã.
Os reféns da burocracia se defendem dizendo que não é culpa deles, exige-se o cumprimento da lei, e estão certos, senão vira bagunça. Mas alguém lá em cima, com a caneta na mão, tem o dever de promover mais agilidade nesse Brasil que só é rápido na informalidade. Há que se encontrar um meio de trabalhar de forma legal e ao mesmo tempo atender as demandas em prazo de país desenvolvido, que é o que almejamos ser.
O que é preciso para promover a desburocratização? Claro, uns 3.479 estudos de viabilidade. Pocotó, pocotó.
terça-feira, 20 de março de 2012
Nosso corpo nos pertence - Mirian Goldenberg
Imagem: Reprodução
Que tal pararmos de esconder nossos corpos e nos libertarmos de pressões sociais que ainda nos aprisionam?
No final dos anos 60, as feministas norte-americanas queimaram sutiãs em praça pública para protestar contra a dominação masculina. Elas gritaram: "Nosso corpo nos pertence". Não sabemos se houve realmente a queima de sutiãs, mas o poder dessa imagem é tão forte que, até hoje, simboliza a luta contra a opressão das mulheres.
Leila Diniz, em 1971, exibiu a barriga grávida de biquíni na praia de Ipanema. Até então, as grávidas escondiam as barrigas em roupas largas e escuras. A barriga grávida de Leila Diniz representa a mesma mensagem: "Meu corpo me pertence".
Quase meio século depois desses dois eventos libertários, como as brasileiras se sentem com seus corpos?
Uma psicanalista de 59 anos afirma: "Muitas mulheres, inclusive as mais jovens e magras, não usam biquínis ou shorts porque sentem vergonha das celulites e estrias. Deixam de ir à praia, festas e até de trabalhar quando se sentem gordas ou feias. Só fazem sexo de luz apagada. Colocam uma lente de aumento nas imperfeições e são cegas para todo o resto. Algumas estão viciadas em cirurgias plásticas, botox, preenchimentos. Outras passam a vida inteira reféns de regimes malucos".
Ela constata um enorme sofrimento em função da busca do corpo perfeito. "As mulheres estão obcecadas com a aparência e têm pânico de envelhecer. O pior é que elas são muito mais cruéis com a aparência feminina do que com a masculina. Dizem que os homens ficam charmosos com rugas e cabelos brancos, mas são extremamente críticas com as mulheres que engordam e não pintam os cabelos." Ela conclui: "É a verdadeira prisão do século 21".
Simone de Beauvoir disse que só existe uma saída para as mulheres: elas devem recusar os limites que lhes são impostos e procurar abrir para si e para as outras mulheres os caminhos da libertação.
O Dia Internacional da Mulher provoca uma reflexão: o que estamos fazendo, no nosso dia a dia, para deixar de ser coniventes com a imposição de um modelo de corpo que exclui a maior parte das brasileiras?
Por que não resgatamos o famoso slogan feminista "nosso corpo nos pertence" e nos tornamos protagonistas de uma nova revolução? Que tal pararmos de esconder nossos corpos e nos libertarmos das pressões sociais que ainda aprisionam as mulheres brasileiras?
MIRIAN GOLDENBERG é antropóloga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de "Toda Mulher é Meio Leila Diniz" (Ed. BestBolso)
Fonte: Folha de São Paulo
Paciência, você irá sempre precisar dela.
Imagem: Reprodução
Você tem ótima razões para segurar a onda: ter paciência ajuda a cultivar bons relacionamentos e acelera a produtividade no trabalho
Por Juliana Mariz
Ser capaz de contar até dez antes de explodir é quase uma utopia
emocional. Virar uma criatura elevada, com capacidade extrema de
manter-se tolerante, é difícil mesmo. Mas se esforçar para chegar lá é
uma das poucas coisas gratuitas, relativamente fáceis e que não dependem
de mais ninguém, que se pode fazer para manter o corpo saudável.
A regra é clara: paciência mantém o corpo em equilíbrio, impaciência faz um mal danado. "Quando impacientes, as pessoas tendem a tomar atitudes agressivas. A raiva libera cortisol, que, em níveis elevados, é tóxico para o organismo", explica Samia Simurro, psicóloga e vice-presidente de projetos da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).
O que faz alguém perder o eixo é, quase sempre, uma situação que, vista em retrospecto, poderia ser facilmente contornada. Depois de um arroubo de irritação, é quase certo que virá uma ressaca moral. Em defesa dos esquentadinhos, no entanto, está a evidência de que um perrengue localizado nada mais é do que uma gota d'água, um momento de impaciência depois de muitos outros que foram garbosamente driblados. "As pressões são individuais e dos outros. Aliada a isso, existe atualmente a exigência de respostas rápidas para tudo, e a paciência sendo colocada à prova", diz a psicóloga Ana Merzel Kernkraut.
A chave é se programar previamente para situações que têm chance de nos fazer estourar. "O congestionamento, aquela ligação para o call center, as situações do trabalho são potenciais momentos de pressão. Mas é preciso estar preparado e lembrar que perder a paciência só gera mais insatisfação. A repercussão disso é só estresse. E raramente as pessoas conseguem resolver algum problema quando estão com altas doses de tensão ", afirma a psicóloga.
A regra é clara: paciência mantém o corpo em equilíbrio, impaciência faz um mal danado. "Quando impacientes, as pessoas tendem a tomar atitudes agressivas. A raiva libera cortisol, que, em níveis elevados, é tóxico para o organismo", explica Samia Simurro, psicóloga e vice-presidente de projetos da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).
O que faz alguém perder o eixo é, quase sempre, uma situação que, vista em retrospecto, poderia ser facilmente contornada. Depois de um arroubo de irritação, é quase certo que virá uma ressaca moral. Em defesa dos esquentadinhos, no entanto, está a evidência de que um perrengue localizado nada mais é do que uma gota d'água, um momento de impaciência depois de muitos outros que foram garbosamente driblados. "As pressões são individuais e dos outros. Aliada a isso, existe atualmente a exigência de respostas rápidas para tudo, e a paciência sendo colocada à prova", diz a psicóloga Ana Merzel Kernkraut.
A chave é se programar previamente para situações que têm chance de nos fazer estourar. "O congestionamento, aquela ligação para o call center, as situações do trabalho são potenciais momentos de pressão. Mas é preciso estar preparado e lembrar que perder a paciência só gera mais insatisfação. A repercussão disso é só estresse. E raramente as pessoas conseguem resolver algum problema quando estão com altas doses de tensão ", afirma a psicóloga.
1, 2, 3, 4...
Sim, falar é mais fácil do que fazer. Paciência tem de ser lapidada.
Contar até dez, respirar ou mesmo cantar em voz alta são estratégias que
podem surtir efeito, mas as artimanhas que funcionam são pessoais.
Ainda assim, a psicologia comportamental tem uma recomendação universal:
em uma situação explosiva, resolva o que está a seu alcance resolver -
depois relaxe. "Isso evita um gasto de energia desnecessário por causa
da raiva", diz Ana Merzel Kernkraut.
Tomando emprestada a filosofia do mestre Gentileza (aquela que diz que gentileza gera gentileza), paciência também gera paciência. Quanto mais equilibrado está o corpo humano, maior é sua capacidade de dominar situações estressantes. E essa é uma cadeia: ao evitarmos um arroubo, não contaminamos as pessoas que estão por perto - que pode ser um colega de trabalho, um motorista ou até ela, a atendente de telemarketing.
No trabalho, paciência também tem a ver com produtividade e criatividade. Pessoas mais pacientes tendem a ter bons relacionamentos e a manter um ambiente sem hostilidade. E sucessivos estudos de recursos humanos mostram que isso é bom para alcançar promoções. Os hippies não estavam errados: paz e amor é o que importa. Até mesmo para conseguir um aumento.
Tomando emprestada a filosofia do mestre Gentileza (aquela que diz que gentileza gera gentileza), paciência também gera paciência. Quanto mais equilibrado está o corpo humano, maior é sua capacidade de dominar situações estressantes. E essa é uma cadeia: ao evitarmos um arroubo, não contaminamos as pessoas que estão por perto - que pode ser um colega de trabalho, um motorista ou até ela, a atendente de telemarketing.
No trabalho, paciência também tem a ver com produtividade e criatividade. Pessoas mais pacientes tendem a ter bons relacionamentos e a manter um ambiente sem hostilidade. E sucessivos estudos de recursos humanos mostram que isso é bom para alcançar promoções. Os hippies não estavam errados: paz e amor é o que importa. Até mesmo para conseguir um aumento.
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segunda-feira, 19 de março de 2012
Dica de Nutrição: 5 bons motivos para tomar CHÁ VERDE

Foto:divulgação
O chá verde é o queridinho de toda dieta, mas existem muitos outros
benefícios pelos quais vale a pena tomá-lo. Diariamente saem estudos com
novas descobertas a favor dessa bebida. A nutricionista Cristiane
Spricigo selecionou os cinco principais motivos para seu consumo:
1 – Termogênico – a cafeína e as catequinas aumentam a termogênese,
ou seja, ajudam a queimar mais calorias ao longo do dia. E se malhar,
consegue queimar mais gorduras durante o exercício.
2 – Diurético – sabe aquele inchaço que te incomoda? O chá verde é um ótimo aliado, pois tem ação diurética.
3 – Protege o cérebro do Mal de Alzheimer – uma pesquisa comprovou
que além do Alzheimer, ele seria capaz de proteger o cérebro contra
outras demências também.
4 – Proteção contra doenças cardiovasculares – vários estudos
associam o consumo de chá verde com a redução de doenças
cardiovasculares e com redução do colesterol total e de sua fração
“ruim” o LDL.
5 – Ação anticancerígena – o chá verde não para de nos surpreender
com seus benefícios, diversas pesquisas realizadas e em execução atestam
seu poder contra vários tipos de câncer.
A especialista ainda esclarece: “Vale a pena lembrar que seu consumo
deve ser diário e estar associado a um estilo de vida saudável, de nada
adianta apenas tomá-lo e esperar que a mágica aconteça”. Anote as dicas
e insira o chá verde na alimentação!
Mestres ensinam o caminho da harmonia interior
Imagem: Henrik Johansson - Mesa Arch, Canyonlands National Park, Utah
Especialistas dão dicas para encontrar o equilíbrio no dia a dia
Por Raphaela de Campos Mello
A natureza, o Universo e o corpo humano estão em
constante ebulição. Essa é a regra de ouro da existência. Portanto, não
há outra saída. Temos de alcançar o equilíbrio em meio às inúmeras
tarefas cotidianas. E já que a roda da vida está sempre em movimento,
cabe a cada uma de nós marcar o próprio compasso. Para iluminar essa
busca, a BONS FLUIDOS ouviu dez profundos conhecedores da alma humana.
Veja os conselhos de cinco deles e encontre seu eixo.
Um pacto com si mesma (Lidia Aratangy, psicoterapeuta)
Ao contrário do que as pessoas costumam pensar, harmonia interior não é ausência de conflito, e sim saber lidar com eles, sem se deixar dominar. Claro que a capacidade de tolerar dificuldades varia de acordo com as etapas da vida. À medida que o indivíduo intensifica o autoconhecimento, essa tarefa vai se tornando menos complicada. Vale lembrar que a terapia não é o único caminho para se conhecer. Bons amigos e experiências emocionais, como aquelas proporcionadas pela literatura e pelo cinema, fazem toda a diferença. Precisamos estar atentas a três atitudes que, em geral, trazem insatisfação. A primeira é dar atenção demasiada às coisas não realizadas. Essa postura empobrece a vida que temos hoje. Igualmente prejudicial é a busca por aceitação. Em nome dela, as pessoas costumam abandonar seus próprios valores e desejos para adotar referenciais alheios. Por fim, não podemos nos esquecer de nos indagar periodicamente se os planos de ontem ainda fazem sentido hoje. Com esses cuidados, podemos alcançar momentos de harmonia, traduzidos em uma atitude de abertura para o novo, com a consciência plena de que a vida vale a pena.
Uma boa razão para viver (Sandra Spiri, psicóloga e aromaterapeuta)
Precisamos encontrar um sentido para a vida. Sem isso, perdemos o foco. Logo, a alegria e a esperança vão embora e, em seu lugar, a doença se instala. É comum entrarmos numa roda-viva, pressionados por questões de todo tipo até que um belo dia nos damos conta de que não fizemos o que gostaríamos de ter feito. Esse descontentamento faz o corpo gritar. Por exemplo, a pele fica irritada quando perdemos a paciência e a tolerância. Pessoas tristes e solitárias costumam desenvolver problemas renais ou cardíacos. Quem engole sapo está mais propenso a adquirir gastrite ou úlcera. Há pontos que precisamos trabalhar se quisermos atingir a leveza do coração. Aí entra a aromaterapia, técnica que lida com óleos essenciais de plantas e flores e atua no campo das emoções. Esse é apenas um caminho. Há inúmeras maneiras de olharmos para dentro de nós. Já aqueles que investem no autoconhecimento são mais honestos consigo e com os outros. Um recurso acessível e eficaz é, de tempos em tempos, se perguntar: o que posso fazer pela minha felicidade hoje?
Cuidado holístico (Alex Botsaris, médico e fisioterapeuta)
A harmonia interior não é uma conquista perene, e sim uma busca contínua. Mesmo indivíduos iluminados, como o Dalai-lama, perseguem esse estado de espírito todos os dias. Para viver com serenidade, é preciso treinamento espiritual, mental e físico. O caminho de cada indivíduo é único. Mas é certo que, independentemente de religião, crenças e valores, precisamos estabelecer um contato legítimo com as energias que movem o Universo e transformar essa conexão em fonte de equilíbrio. No campo mental, devemos perseguir uma vida tranquila e com o mínimo de conflitos emocionais. Para a medicina chinesa, o principal fator de equilíbrio é a alimentação. Ao selecionar os nutrientes que ingerimos, influenciamos positivamente a composição do nosso organismo. O sono precisa de horários regulares e quantidade de horas adequadas. Recomendo exercícios físicos diários e, como complemento, ioga ou meditação. Tratamentos que relaxam, como acupuntura e massoterapia, são excelentes para nos proteger dos desgastes cotidianos.
Escolhas certeiras (Ana Lúcia Faria, psicóloga especializada em psicoterapia reichiana e análise bioenergética)
Entendo a harmonia interior como a sensação de bem-estar e conforto consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Quando alcançamos esse estágio, somos guiados por um senso de realidade muito verdadeiro. Aceitamos e respeitamos nossos limites, ou seja, compreendemos que podemos fazer muitas coisas, mas não todas ao mesmo tempo. Apropriamonos de nós mesmos e abandonamos as ilusões. Para conquistar esse entendimento, precisamos estar inteiros em nossas escolhas. Mas, antes, devemos assimilar que escolhas são construções que acarretam a renúncia de algo. Quando priorizamos e valorizamos uma meta, conseguimos abrir mão do que for necessário para atingi-la, sem apego. O desafio é desenvolver esse comportamento com atenção. Nesse caso, o corpo responde à altura, fica mais flexível. O problema é que o estresse e, portanto, a desarmonia, nasce da ilusão de sermos super-homens e super-mulheres, que exigem de si mesmos muito mais do que podem, trabalham horas excessivas, dormem pouco e comem mal. Quando sabemos reconhecer nossos limites, temos tempo para os amigos, os amores, a família, enfim, as relações, que, em última instância, são o palco de nosso crescimento interior.
Ao contrário do que as pessoas costumam pensar, harmonia interior não é ausência de conflito, e sim saber lidar com eles, sem se deixar dominar. Claro que a capacidade de tolerar dificuldades varia de acordo com as etapas da vida. À medida que o indivíduo intensifica o autoconhecimento, essa tarefa vai se tornando menos complicada. Vale lembrar que a terapia não é o único caminho para se conhecer. Bons amigos e experiências emocionais, como aquelas proporcionadas pela literatura e pelo cinema, fazem toda a diferença. Precisamos estar atentas a três atitudes que, em geral, trazem insatisfação. A primeira é dar atenção demasiada às coisas não realizadas. Essa postura empobrece a vida que temos hoje. Igualmente prejudicial é a busca por aceitação. Em nome dela, as pessoas costumam abandonar seus próprios valores e desejos para adotar referenciais alheios. Por fim, não podemos nos esquecer de nos indagar periodicamente se os planos de ontem ainda fazem sentido hoje. Com esses cuidados, podemos alcançar momentos de harmonia, traduzidos em uma atitude de abertura para o novo, com a consciência plena de que a vida vale a pena.
Uma boa razão para viver (Sandra Spiri, psicóloga e aromaterapeuta)
Precisamos encontrar um sentido para a vida. Sem isso, perdemos o foco. Logo, a alegria e a esperança vão embora e, em seu lugar, a doença se instala. É comum entrarmos numa roda-viva, pressionados por questões de todo tipo até que um belo dia nos damos conta de que não fizemos o que gostaríamos de ter feito. Esse descontentamento faz o corpo gritar. Por exemplo, a pele fica irritada quando perdemos a paciência e a tolerância. Pessoas tristes e solitárias costumam desenvolver problemas renais ou cardíacos. Quem engole sapo está mais propenso a adquirir gastrite ou úlcera. Há pontos que precisamos trabalhar se quisermos atingir a leveza do coração. Aí entra a aromaterapia, técnica que lida com óleos essenciais de plantas e flores e atua no campo das emoções. Esse é apenas um caminho. Há inúmeras maneiras de olharmos para dentro de nós. Já aqueles que investem no autoconhecimento são mais honestos consigo e com os outros. Um recurso acessível e eficaz é, de tempos em tempos, se perguntar: o que posso fazer pela minha felicidade hoje?
Cuidado holístico (Alex Botsaris, médico e fisioterapeuta)
A harmonia interior não é uma conquista perene, e sim uma busca contínua. Mesmo indivíduos iluminados, como o Dalai-lama, perseguem esse estado de espírito todos os dias. Para viver com serenidade, é preciso treinamento espiritual, mental e físico. O caminho de cada indivíduo é único. Mas é certo que, independentemente de religião, crenças e valores, precisamos estabelecer um contato legítimo com as energias que movem o Universo e transformar essa conexão em fonte de equilíbrio. No campo mental, devemos perseguir uma vida tranquila e com o mínimo de conflitos emocionais. Para a medicina chinesa, o principal fator de equilíbrio é a alimentação. Ao selecionar os nutrientes que ingerimos, influenciamos positivamente a composição do nosso organismo. O sono precisa de horários regulares e quantidade de horas adequadas. Recomendo exercícios físicos diários e, como complemento, ioga ou meditação. Tratamentos que relaxam, como acupuntura e massoterapia, são excelentes para nos proteger dos desgastes cotidianos.
Escolhas certeiras (Ana Lúcia Faria, psicóloga especializada em psicoterapia reichiana e análise bioenergética)
Entendo a harmonia interior como a sensação de bem-estar e conforto consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Quando alcançamos esse estágio, somos guiados por um senso de realidade muito verdadeiro. Aceitamos e respeitamos nossos limites, ou seja, compreendemos que podemos fazer muitas coisas, mas não todas ao mesmo tempo. Apropriamonos de nós mesmos e abandonamos as ilusões. Para conquistar esse entendimento, precisamos estar inteiros em nossas escolhas. Mas, antes, devemos assimilar que escolhas são construções que acarretam a renúncia de algo. Quando priorizamos e valorizamos uma meta, conseguimos abrir mão do que for necessário para atingi-la, sem apego. O desafio é desenvolver esse comportamento com atenção. Nesse caso, o corpo responde à altura, fica mais flexível. O problema é que o estresse e, portanto, a desarmonia, nasce da ilusão de sermos super-homens e super-mulheres, que exigem de si mesmos muito mais do que podem, trabalham horas excessivas, dormem pouco e comem mal. Quando sabemos reconhecer nossos limites, temos tempo para os amigos, os amores, a família, enfim, as relações, que, em última instância, são o palco de nosso crescimento interior.
No balanço da vida (Mario Sergio Cortella, filósofo de doutor em educação)
Na realidade, a harmonia é alcançada por meio da capacidade de lidar com as adversidades. Nós encontramos o equilíbrio quando conseguimos ir de um extremo a outro sem nos perdermos. Em nossa vida, a harmonia é uma construção cotidiana. Uma busca pela ordem que exige esforço, pois sempre há o risco de sucumbirmos em meio às dificuldades. Mas, nessa jornada, o contraponto é fundamental para valorizarmos o que temos em mãos. A ausência nos faz desejar a presença, o trânsito diário nos faz vibrar em dias de feriado quando as ruas estão vazias. E assim por diante. A harmonia se manifesta na vida que pulsa em suas várias possibilidades, inclusive nas sombrias. Nas relações afetivas e familiares vivenciamos essa dinâmica. Estamos juntos, rompemos, reatamos. Experimentamos uma harmonia vibrante, que passa pelo choro, pelo riso, pela dor e pelo silêncio. Quando a desarmonia trouxer inquietação, podemos respirar com tranquilidade, meditar sobre a situação e olhá-la com distanciamento. Assim, certamente iremos enxergar a saída e prosseguiremos, lembrando sempre do velho dito: "Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe".
Na realidade, a harmonia é alcançada por meio da capacidade de lidar com as adversidades. Nós encontramos o equilíbrio quando conseguimos ir de um extremo a outro sem nos perdermos. Em nossa vida, a harmonia é uma construção cotidiana. Uma busca pela ordem que exige esforço, pois sempre há o risco de sucumbirmos em meio às dificuldades. Mas, nessa jornada, o contraponto é fundamental para valorizarmos o que temos em mãos. A ausência nos faz desejar a presença, o trânsito diário nos faz vibrar em dias de feriado quando as ruas estão vazias. E assim por diante. A harmonia se manifesta na vida que pulsa em suas várias possibilidades, inclusive nas sombrias. Nas relações afetivas e familiares vivenciamos essa dinâmica. Estamos juntos, rompemos, reatamos. Experimentamos uma harmonia vibrante, que passa pelo choro, pelo riso, pela dor e pelo silêncio. Quando a desarmonia trouxer inquietação, podemos respirar com tranquilidade, meditar sobre a situação e olhá-la com distanciamento. Assim, certamente iremos enxergar a saída e prosseguiremos, lembrando sempre do velho dito: "Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe".
Fonte: Revista Bons Fluidos
sexta-feira, 16 de março de 2012
A vida do outro é sempre mais fácil - Isabel Clemente
Imagem: Peter Baker
Coisa que me incomoda são os discursos de autopiedade. Por serem
desprovidos de autocrítica ou por não indicarem solução para a
autocomiseração, soam-me como labirintos de palavras inúteis. Pavimentam
caminhos que não levam a lugar algum. Elevados às raias do exagero,
esses discursos também excluem o outro da conversa porque geralmente
quem reclama demais só ouve a si mesmo, além de transmitir a seguinte
mensagem: sua vida é muito mais fácil do que a minha, só te resta me
escutar. E está selado, assim, o fim da nossa amizade.
Uma variação do discurso de autopiedade é aquele que arvora para si o
monopólio da experiência. Nasci antes, portanto, sei mais do que você.
Já passei por isso, sua experiência me é desnecessária. No final das
contas, a conclusão de quem pensa assim é que o outro nada pode lhe
acrescentar. Ela busca confirmar a própria penúria e se rotula, sem
perceber, como alguém digno de pena. Essa pessoa é uma ilha, onde só
chegam a nado os escolhidos, que serão poucos, aliás, e todos como ela
mesma. Basicamente um lugar chato.
E tem também a versão autopiedosa de quem prefere julgar o outro pelo
que ele parece ser. Em pé, na banca, a mulher do lado comenta a
terceira gravidez de Angélica. “Com todo esse dinheiro, até eu teria
três filhos”. Vai dizer que você nunca ouviu isso? A mulher resolveu se
justificar jogando para o outro, a Angélica, a “vida fácil” que ela não
tem. É claro que o dinheiro ajuda. Problemas práticos se afastam. Você
contrata alguém para cozinhar, lavar, arrumar, pagar suas contas e até
organizar o seu armário, se quiser. E tem todo o glamour, as portas que
se abrem, a profissão que rende dinheiro etc. Quase um conto de fadas.
Mas ter filhos é mais do que bancar escola, médico, roupas e brinquedos.
É mais do que proporcionar viagens e conforto. O que um filho precisa
mesmo é de atenção e proteção, e essas mercadorias podem faltar tanto
nas famílias abastadas como nas carentes. Além do mais, o imponderável
da vida é democrático, vale para todos nós. Muitas vezes é essa sensação
de não controlar o mundo que deixa as pessoas inseguras e com medo.
Para esse medo, não tem dinheiro que dê jeito.
Não sei da vida da Angélica, não é minha amiga e nunca a entrevistei.
O que eu quero dizer é que apontar os privilégios alheios para
justificar as minhas dificuldades é o pior caminho. O fato do outro não
ter passado pelas mesmas experiências, de não ter necessariamente
“começado de baixo”, de não ter sofrido com uma determinada doença, não
ter ficado desempregado não o desqualifica, apenas o caracteriza como
alguém diferente de quem passou por tudo isso.
É bom se identificar. Abrimos as portas da nossa alma para pessoas
que parecem refletir nossos pensamentos. Nada mais reconfortante do que
ler uma crônica política que traduza nossa indignação. É libertador rir
de uma cena no cinema que parece tirada da nossa vida particular. Mas
nada mais enriquecedor do que descobrir no outro sentimentos como os
meus. É a humanidade que nos aproxima. E humanidade é o único antídoto
que conheço para a intolerância e para o monopólio da dor. Se somos
todos humanos, rimos e choramos.
Fonte: Revista Época
terça-feira, 13 de março de 2012
segunda-feira, 12 de março de 2012
Como surgiu a tradição do Shabat?
A origem do dia de resguardo semanal dos judeus está no quarto
mandamento, tal como aparecia originalmente no Antigo Testamento, ou
seja, consagrando o sábado como dia santo, por se tratar do dia em que
Deus terminou a criação do Universo.
Segundo os historiadores, os
cristãos fizeram algumas adaptações nos mandamentos, reservando o
domingo para o descanso. “O shabat é um direito do ser humano, é o seu
momento de repouso e de reflexão”, diz Raul Meyer, vice-presidente do
Centro de Cultura Judaica, em São Paulo. “É também a ocasião reservada
para saudar a Deus.” Para o rabino Henry Sobel, presidente da
Congregação Israelita Paulista, “nesse dia, o homem não está sujeito às
tensões e às exigências da vida cotidiana”. Em seu livro Os Porquês do
Judaísmo, ele escreve que o shabat é uma afirmação da criação divina:
nesse dia interrompemos o trabalho, pois assim fez o Criador.
Portanto o
dia de descanso conscientiza o ser humano de que ele não domina o mundo
e depende do poder supremo de Deus.
O shabat, que é um dos principais
rituais da fé judaica, começa sexta-feira à tarde, quando a primeira
estrela desponta no céu, e termina no sábado, ao entardecer. “A partir
de seu início, as ações rotineiras devem ser interrompidas, dando lugar
às atividades intelectuais e às de lazer”, afirma Meyer.
O que é comida kosher?
É o alimento judaico preparado de acordo com a Torá, o livro sagrado dos
judeus. Kasher (ou kosher) em hebraico quer dizer “permitido”,
“próprio” ou “bom”. As leis judaicas só permitem o consumo de carne de
animais ruminantes e com casco fendido (partido), considerados mais
limpos. Por isso, os judeus não comem carne de porco, que não são
ruminantes. Com relação aos peixes, estão liberados aqueles que têm
escamas e barbatanas, pois ao contrário de outros animais marinhos, como
camarões, polvos e lulas, não se alimentam de detritos e restos de
animais encontrados no fundo do mar. Quanto às aves, a proibição recai
sobre as de rapina, já que elas se alimentam de restos de outros bichos.
Os animais considerados puros devem ser mortos em um ritual cheio de
regras. Não é permitido que sofram antes de morrer e, depois de
abatidos, seu sangue deve ser completamente drenado. Os alimentos
kasher, cuja fundamentação pode ser vista em O Livro Judaico dos Porquês
(Sefer) custam mais do que os convencionais e precisam da aprovação de
um rabino para serem vendidos, normalmente em casas especializadas e em
alguns supermercados. “A comida kasher é sempre identificada com um selo
de qualidade e existe um rígido controle sobre seu processo de
produção”, afirma o rabino Motl Malowany, da Sinagoga Knesset Israel, de
São Paulo.
Fonte: Revista Vida Simples
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